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O SÁBIO SABIÁ – PARTE 2

| 6 novembro 2013

                                                

                “(…)Vou voltar para o meu lugar, foi lá/que eu hei de ouvir cantar uma sabiá…”. Durante um mês, talvez um pouco mais, essa a trilha sonora que perdurou e comandou as ações de nossa casa, sendo que, nos últimos dias, com direito a passagens angustiantes, emocionantes e, por fim, compensadoras.

                Como aqui escrevi na coluna anterior, pela primeira vez em mais de 23 anos de moradia, hospedamos em nosso quintal ninho de um casal de sabiás pardos e seus respectivos filhotes (havia afirmado que eram dois, na verdade nasceram três, caso maravilhosamente raro, como diriam os especialistas). Aquele relato se fechava em si, pensara. No entanto, na medida em que os dias de vida dos filhotes foram avançando – e nada de eles colocarem os bicos e asas para fora do ninho – nossa expectativa ia gradativamente se aumentando, imaginando uma sequência de filme da Disney, quando, do nada, os mesmos estariam se equilibrando na borda do ninho, nos dando bom dia e ensaiando seus primeiros vôos.

                Roteiro perfeito para ser verdade, lendo artigos a respeito os quais tratavam da alimentação, acasalamento e gorjeados mais conhecidos, sempre ficava a dúvida de como seria a passagem dos mesmos para a vida “adulta”, com direito a vôos e caça às minhocas e congêneres, a inconsciência trabalhando e retrabalhando idéias, municiando a ansiedade, dando asas, literalmente, à imaginação. E como nós, seres humanos, sempre nos achamos mais espertos que animais ditos não racionais, no final da semana passada ultrapassei os limites do bom senso e, posicionando escada próxima ao toco do coqueiro hospedeiro do ninho, me aventurei a bisbilhotar o que rolava logo cedo no lar dos passeriformes – é mole – gênero da espécie cujo nome científico é “Turdus leucomelas”.

                Óbvio que a minha burrice tinha que prevalecer. Assustados, dois filhotes já completamente emplumados saíram e caíram do ninho, para nosso desencanto e desespero, aliás compartilhados pela fêmea do casal, que, enfurecida, alçou vôo em minha direção com intenção – e razão – de me atingir e ferir, já que eu havia acabado de infringir uma lei da natureza até então desconhecida.

                Momentos de angústia, os filhotes no chão, saltitando em direção ao fundo da casa, onde já pastavam por ali os gaviões fazendo seu café da manhã com as muitas lagartas caídas do coqueiro; nossas boxers nos acompanhando na cena, uma delas, a Súria, por diversas vezes condecorada por caçar ratos e advertida pelas várias pombas e rolinhas já abatidas em seus onze anos de traquinagens, na espreita, tentando entender a confusão por mim criada. Duas horas depois, debaixo do pampeiro da fêmea e do macho, conseguimos, eu e minha esposa, recuperar e recolocar os filhotes no ninho…Ufa, remissão do pecado, pensei!

                Coisa nenhuma, pecado maior, burrice indômita, me ensinou horas depois o mano Nandão, especialista em bichos, plantas e piadas censuradas, além da ginecologia. Disse-me que os filhotes precisavam “pastar” primeiro, adquirir confiança e força sob os ensinamentos da mãe – o pai continuava cantando enquanto a mãe voava e zelava pela proteção e alimentação – para, algum tempo depois (que tempo, quanto tempo? meu cérebro matemático me enchendo a paciência), saírem do chão, subirem em galhos baixos de árvores e, de repente, como no imaginário filme do Walt Disney, lá estariam pelos telhados e topos da acerola, da amoreira e, por fim, o céu é o limite, adeus colina que eu já vou me embora…

                E assim se deu, com a fêmea totalmente estressada e jurando vingança à minha pessoa, que os filhotes se foram, nos abandonaram e, junto com eles, seus pais…Entre a alegria de ter assistido o alçar do vôo do último filhote e a tristeza de saber que, por ora, não estaremos ouvindo o canto do pai nem vendo a labuta e zelo da mãe, a esperança nos chama, na forma entoada da canção que não quer calar…”Vou voltar para o meu lugar/lá eu hei de ouvir cantar uma sabiá…”Espero, firmemente, que o casal tenha me perdoado, assim as chances de nova cria estarão vivas…

 

 

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