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É URGENTE PÔR UM FIM À URGÊNCIA

| 26 dezembro 2013

 

            Época dos festejos Natalinos, das retrospectivas e perspectivas. Época das reflexões, dos balanços e ajustes, das projeções de um novo tempo. Época em que as pessoas, a despeito de se lançarem às compras como gafanhotos em hortas sem espantalhos, de repente – ainda que muitos necessitem de indução – e na fusão da consciência com a inconsciência, descobrem que podem largar o celular e olhar para o lado, para o próximo, redescobrindo a solidariedade e o aperto de mão.

Sem contar o “Jingle Bells” tradicional, a trilha sonora das ceias de Natal e Reveillon ressoa muito além dos fogos de artifício e presentes, nos traz também a sinfonia dos ausentes, aqueles que há bastante tempo ou que, ano passado mesmo, estavam entre nós nessas comemorações.

Tempo, sempre ele. O ontem, o hoje e o amanhã, três possibilidades apenas, e, a julgar a fotografia social do mundo contemporâneo , uma só atitude perante esse “senhor das coisas”, que ignora os espaços e nos convida, insistentemente, a ignorar as primeiras aulas de Física e a adotar, dia após dia, uma velocidade cada vez maior para o nosso cotidiano.

Todos devem se lembrar, mesmo que de forma remota, que a velocidade é a razão (fração/taxa) que dosa o espaço a se deslocar em relação ao tempo necessário para que esse deslocamento se processe. Tempo é o denominador, e, assim alocado, nos permite concluir de maneira espontânea que, mantido constante o espaço no numerador dessa fração, se ele é grande, a velocidade é pequena e, ao contrário, se ele é pequeno, a velocidade é grande.

A informação “em tempo real”, a infeliz indução de que temos que estar sabendo de tudo que no mundo ocorre, na medida em que nos conectamos à essa paranoia da superficialidade dos noticiários bombardeados em nossa direção, está deformando a espécie humana. Temos família, trabalho e sonhos no elenco de nossas relações (sem aqui se esquecer que há muitos desafortunados sem família, trabalho e sonhos), as quais, para avançarem, do sonho para a realidade, demandam – olha ele aí de novo – tempo para que se concretizem.

Assim nasce a mais nova patologia deste ainda iniciante milênio, a ansiedade. Parece que Nostradamus está na espreita nos avisando que o mundo vai se acabar, e então, inexoravelmente, tudo se torna urgente. O orçamento é urgente, o conserto é urgente, se o jantar pudesse ser servido na hora do almoço ganharíamos tempo, olha que maravilha, sobraria mais tempo para ficarmos conectados (se bem que já tem muita gente que almoça e janta com o computador na mesa e o celular na orelha).

Aprendi lá atrás que urgência só faz sentido em duas situações bem clássicas, às quais qualquer ser humano está sujeito: problemas de saúde e acidentes. Confesso que me esforço diariamente pra tentar buscar alguma outra situação que nos remeta a aplicar e se sujeitar à urgência e não consigo encontrar uma terceira implicação para isso; aprendi também, quando professor de matemática, que, ao se disciplinar através da lógica básica, podemos organizar nosso tempo e, por extensão, mantermos uma velocidade para a resolução das situações geradas em nossas relações, velocidade essa compatível para não se prostrar à ansiedade. Há um complicador nisso, reconheço: a incompetência que pode aflorar nessas relações, motivadas pela má educação familiar, escolar ou do sistema, principalmente o da locomoção humana, que estressa, sem exceção, por exemplo,os moradores das grandes metrópoles.

Além da saúde que desejo pra todos, faço votos que a partir deste Natal e, já adentrando o novo ano, a urgência saia da vida de todos. Talvez assim, de repente, cada pessoa volte a ter tempo para olhar para o lado e perceber que, sem a felicidade alheia, não haverá a sua felicidade, e que os sonhos não sejam só os de consumo.

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