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UMA QUESTÃO DE DOSE

| 19 janeiro 2014

 

            “Se eu quiser fumar eu fumo/se eu quiser beber eu bebo/pago tudo o que consumo com o suor do meu emprego…”, já cantava Zeca Pagodinho no começo dos anos 90, ele, que no despontar da carreira, tinha que se esquecer do almoço pra poder jantar. Questão de dose, como sempre, nesta vida.

Do Maranhão vem a receita em licitação: 80 quilos de lagosta, 1000 quilos de camarão, 2000 quilos de pescada. Haja dose, empanturrados  ensarneyzados de frutos do mar. A diferença simples em relação aos versos do Zeca Pagodinho é que, no caso, esta turma do poder maranhense consome tudo isso sem ter que suar pra consumir, vem tudo na faixa, cai na conta do trabalhador, que paga o maior conjunto de impostos do mundo para ter um dos piores serviços do mundo, em todas as áreas, inclusive na segurança presidiária catastrófica recém-anunciada naquelas bandas.

Paracelso, alquimista suíço, nos legou uma máxima, inquestionável, desde o século 17: a diferença entre a cura e o vício é a dosagem da droga. E ele tem razão, mesmo passados mais de trezentos anos, continua atualíssima. A questão, em qualquer situação, é se identificar a droga e, por extensão, administrar a sua dosagem. Cigarro, cachaça, celulares inteligentes, futebol com cinco volantes de contenção, novelas, reality shows, governantes, drogas estão por aí em milhares de opções, é só escolher. Após escolha – e aí vem o foro íntimo individual – segue a parte mais difícil, acertar a dose de consumo da droga escolhida, de forma a não se tornar vício.

Um maço ou dois de cigarros diários, três copos ou meio litro de cachaça por balcão de bar, vinte e quatro ou vinte e cinco horas conectados aos aipodis? Assistir a todos os programas de debates sobre futebol, além dos treinos do time do coração, se programar para jantar nos intervalos das novelas pra não perder nada dos capítulos, pagar no pay-per-view para bisbilhotar os brothers e sisters até de madrugada, votar mal e votar mal novamente nos mesmos governantes que prometem e nada fazem, a não ser protagonizarem cenas de fisiologismo e corrupção? É, acertar essa dosagem não é tarefa das mais fáceis, ainda mais porque a vizinha, o colega de trabalho e o padeiro, o tintureiro e o marceneiro podem lhe induzir a ajustar a sua dose em função da dosagem alheia.

Até na música essa abordagem “paracelsica” cabe, é só contabilizar o número de carros que nos agridem diariamente com música (?) estridente envolvida em letras apelativas e melodias inexistentes, só que neste caso há descumprimento da constituição, pois nós como transeuntes não precisaríamos estar consumindo as drogas dos que estão no volante dessas discotecas ambulantes. Caso jurídico para ser resolvido em primeira instância, sem direito a liminares e embargos infringentes. Senão vicia…

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