MORADA DA ALEGRIA

| 26 dezembro 2013

 

                Delcio Carvalho nos deixou, muito antes do combinado. Foi embora terça-feira da semana passada, sem ao menos se despedir da forma usual, com um forte aperto de mão, sorriso escancarado no rosto e aquele brilho dos iluminados no olhar.

Como matriz de uma maneira peculiar de escrever letras para as belíssimas melodias de Dona Ivone Lara, ou dividir responsabilidades musicais com outros parceiros menos frequentes, além de se aventurar a compor palavras e sons de maneira solitária, o cidadão de Campos – ao norte do Estado do Rio de Janeiro – conterrâneo e contemporâneo de outra lenda do samba, Roberto Ribeiro, nosso grande amigo Delcio foi daqui para uma muito melhor.

Humilde – na infância chegou a cortar cana – estava sempre solícito a um bom papo, a colaborar com alguém  e, claro, pronto para um novo show ou um novo trabalho, independente se o cachê seria bom ou não, se sua agenda comportava ele dizia presente. Lembro-me do dia em que pude assistir um primeiro show dele, 1.998, no Sesc Ipiranga, em São Paulo, em companhia de outro grande amigo, o Pipo. Ao final, fotos e autógrafos de praxe, e, na despedida, lhe prometi que iria trazê-lo pra Araraquara fazer um show, já que nunca havia visitado nossa cidade até então.

Demorou um pouco, mas a batalha surtiu efeito e, em 2.005, lá veio o Delcio – e sua produtora e faz-tudo Bertha Nuttels, jornalista e adorável pessoa – para dois shows em nossa região, aqui e em Ribeirão Preto, num projeto chamado “Essa história dá samba”, nas respectivas unidades dos Sescs. Lembro-me de quando foi montar o repertório, fiz a “exigência” de estar nele contido “Nas sombras da vida”, mais uma belíssima composição em parceria com Dona Ivone, a qual ele nem se lembrava mais, pois constou do primeiro LP da grande dama do samba, lançado em 1.976. Contornado o problema com audição aqui em casa em pick-up, ficou feliz de saber que existia muita gente por nossas bandas ligada em samba e mais, que acompanhava a sua obra, magnífica por sinal, não só pelas parcerias com D.Ivone, mas também seus trabalhos autorais, como “Afinal” e “Profissão Compositor”, entre outros.

Mais recentemente, 2.011, esteve novamente nos visitando, quando do lançamento de meu segundo CD autoral “Elos do Samba”, no qual ele, de forma belíssima, interpretou “Serenidade”, samba que compus justamente para homenagear a dupla Ivone&Delcio. Emoção no ar, ao lembrar que no dia em que estivemos no Rio para ele – além de Monarco, Luiz Grande, Zé Luiz do Imperio Serrano e Wilson Moreira – colocarem vozes nas bases gravadas em estúdio paulistano, ele me mostrou, orgulhoso, ao tirar da sua bolsa um tocador de CD com a guia dessa música com minha voz, música que disse gostaria de ter feito.

No dia seguinte ao show, ao levarmos ao aeroporto de Ribeirão Preto para retorno ao Rio, quando desceu do carro me entregou uma carta, que continha, além dos agradecimentos (nós é que estávamos eternamente gratos por ele ter topado vir cantar no lançamento do disco) uma letra, a qual pediu para que colocasse melodia. Se intitulava “Morada da Alegria”, bela e espontânea homenagem à nossa cidade, à acolhida que tiveram ele e Bertha, aos bons momentos que aqui passaram.

Muita responsabilidade pra mim, pensei…De repente, um dos maiorais do samba brasileiro me oferecendo parceria, parecia até um sonho. Confesso que comecei, parei, refiz uma parte, infelizmente não terminei, não a tempo de mostrar a ele. Tenho esta dívida eterna para com o Delcio, que, nos versos finais, escrevera: “(…)Até hoje me abraça/quando o sol vem clareando/ao deixar sua morada/é teu vulto me abraçando/é tesouro, joia rara/ e a luz deste meu canto é teu manto, Araraquara”. Espero que um dia consiga terminar a melodia, que sua luz me ilumine, aí de cima, compadre Delcio Carvalho.

               

 

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O SÁBIO SABIÁ – PARTE 2

| 6 novembro 2013

                                                

                “(…)Vou voltar para o meu lugar, foi lá/que eu hei de ouvir cantar uma sabiá…”. Durante um mês, talvez um pouco mais, essa a trilha sonora que perdurou e comandou as ações de nossa casa, sendo que, nos últimos dias, com direito a passagens angustiantes, emocionantes e, por fim, compensadoras.

                Como aqui escrevi na coluna anterior, pela primeira vez em mais de 23 anos de moradia, hospedamos em nosso quintal ninho de um casal de sabiás pardos e seus respectivos filhotes (havia afirmado que eram dois, na verdade nasceram três, caso maravilhosamente raro, como diriam os especialistas). Aquele relato se fechava em si, pensara. No entanto, na medida em que os dias de vida dos filhotes foram avançando – e nada de eles colocarem os bicos e asas para fora do ninho – nossa expectativa ia gradativamente se aumentando, imaginando uma sequência de filme da Disney, quando, do nada, os mesmos estariam se equilibrando na borda do ninho, nos dando bom dia e ensaiando seus primeiros vôos.

                Roteiro perfeito para ser verdade, lendo artigos a respeito os quais tratavam da alimentação, acasalamento e gorjeados mais conhecidos, sempre ficava a dúvida de como seria a passagem dos mesmos para a vida “adulta”, com direito a vôos e caça às minhocas e congêneres, a inconsciência trabalhando e retrabalhando idéias, municiando a ansiedade, dando asas, literalmente, à imaginação. E como nós, seres humanos, sempre nos achamos mais espertos que animais ditos não racionais, no final da semana passada ultrapassei os limites do bom senso e, posicionando escada próxima ao toco do coqueiro hospedeiro do ninho, me aventurei a bisbilhotar o que rolava logo cedo no lar dos passeriformes – é mole – gênero da espécie cujo nome científico é “Turdus leucomelas”.

                Óbvio que a minha burrice tinha que prevalecer. Assustados, dois filhotes já completamente emplumados saíram e caíram do ninho, para nosso desencanto e desespero, aliás compartilhados pela fêmea do casal, que, enfurecida, alçou vôo em minha direção com intenção – e razão – de me atingir e ferir, já que eu havia acabado de infringir uma lei da natureza até então desconhecida.

                Momentos de angústia, os filhotes no chão, saltitando em direção ao fundo da casa, onde já pastavam por ali os gaviões fazendo seu café da manhã com as muitas lagartas caídas do coqueiro; nossas boxers nos acompanhando na cena, uma delas, a Súria, por diversas vezes condecorada por caçar ratos e advertida pelas várias pombas e rolinhas já abatidas em seus onze anos de traquinagens, na espreita, tentando entender a confusão por mim criada. Duas horas depois, debaixo do pampeiro da fêmea e do macho, conseguimos, eu e minha esposa, recuperar e recolocar os filhotes no ninho…Ufa, remissão do pecado, pensei!

                Coisa nenhuma, pecado maior, burrice indômita, me ensinou horas depois o mano Nandão, especialista em bichos, plantas e piadas censuradas, além da ginecologia. Disse-me que os filhotes precisavam “pastar” primeiro, adquirir confiança e força sob os ensinamentos da mãe – o pai continuava cantando enquanto a mãe voava e zelava pela proteção e alimentação – para, algum tempo depois (que tempo, quanto tempo? meu cérebro matemático me enchendo a paciência), saírem do chão, subirem em galhos baixos de árvores e, de repente, como no imaginário filme do Walt Disney, lá estariam pelos telhados e topos da acerola, da amoreira e, por fim, o céu é o limite, adeus colina que eu já vou me embora…

                E assim se deu, com a fêmea totalmente estressada e jurando vingança à minha pessoa, que os filhotes se foram, nos abandonaram e, junto com eles, seus pais…Entre a alegria de ter assistido o alçar do vôo do último filhote e a tristeza de saber que, por ora, não estaremos ouvindo o canto do pai nem vendo a labuta e zelo da mãe, a esperança nos chama, na forma entoada da canção que não quer calar…”Vou voltar para o meu lugar/lá eu hei de ouvir cantar uma sabiá…”Espero, firmemente, que o casal tenha me perdoado, assim as chances de nova cria estarão vivas…

 

 

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O SÁBIO SABIÁ

| 6 novembro 2013

                               O famoso ornitólogo Dalgas Frisch publicou, após muitos anos de pesquisas e expedições para fotografar e gravar o canto de pássaros brasileiros, que o sabiá é aquele cujo trinado melhor se identifica a partir do ouvido humano, devido à frequência do mesmo se estabelecer numa posição intermediária entre o ruído (poucos decibéis) e o barulho (acima de 80 decibéis), soando de forma suave, nítida e harmônica.

                               Em nossa casa, nesta semana, estamos festejando o nascimento de dois filhotes de sabiás. Aprendi a admirar seu canto com o saudoso sogro Elifas, que, após cada dia de sua suada labuta, se sentava na varanda para ouvir as dezenas de sabiás que criava – laranjeiras/pardos/baianas – conseguindo, de forma incrível, reconhecer e distinguir cada um deles pelo seu canto, sem olhar para a posição das gaiolas. Ele me explicou que não existem dois sabiás com o mesmo canto, todos cantam diferente, até para facilitar, para a fêmea, a escolha na hora do acasalamento, no prenúncio da primavera, começo de Setembro, quando eles estão distilando melodias incríveis para atraí-las e, posteriormente, ensinar os filhotes a trinar.

                               Nosso pequeno quintal tem algumas palmeiras, muitas orquídeas e plantas frutíferas, entre as quais a amoreira, recém-chegada – nem um ano de hospedagem, ela que substituiu um cajueiro adoentado – mas já carregada de frutos, os quais, além do mamão e da banana, estão no cardápio preferido dos sanhaços, maritacas (velhos coadjuvantes desse espaço) e dos sabiás, que em mais de duas décadas nunca deram a cara por ali, só agora. Eles fizeram um estágio no terreno vizinho, cujo perímetro é pontuado por grevilhas, mais altas do que o oitão da edícula, de onde, muito provavelmente, o sabiá observou seus futuros almoços.

                               Demorou alguns meses, talvez dois, a gente sempre ouvindo esse canto que vinha das grevilhas e de repente parecia se aproximar, mais nítido, forte, para que conseguíssemos descobrir que ele estava fazendo o ninho, de forma sábia, no toco de um coqueiro que havia perdido sua copa e se recoberto de orquídeas ainda sem flores, numa posição protegida do vento, da chuva (há outros coqueiros no entorno protegendo o toco restante) e da visão humana (só do muro de divisa se pode ver o ninho) e dos gaviões que rondam os telhados esperando a sobra da marmita das duas boxers que temos.

                               São dois filhotinhos de sabiá pardo, ainda sem penugem, alimentados de forma criteriosa pelos papais que não saem de perto e, ao nos verem rondando o ninho, desesperadamente voltam, aos gritos, pedindo para sairmos das redondezas, como a dizer que ali não é lugar pro ser humano estar, ele, ser humano, que gradativamente vem acabando com as matas e florestas, não restando outro caminho para as aves senão rumar sentido cidades para procurar sobrevivência. São Paulo, aliás, nesta época do ano, apresenta em todos os seus bairros uma sinfonia magistral de sabiás, que começam cedo, pela madrugada, cantando para ensinar seus filhotes, como me lembraria “seo” Elifas.

                               Voltei ao ninho antes de terminar esta coluna, a mãe está por lá, não iria dar a deixa duas vezes no mesmo dia pra que pudesse ver sua cria. O macho, na amoreira, me espiando. Ouço, ao longe, a vencedora do III Festival Internacional da Canção, “Sabiá”, de Chico e Tom Jobim, 1968 : ”Vou voltar/sei que ainda vou voltar/para o meu lugar(…)”. Puxa, faz 23 anos sem o “seo” Elifas, quem sabe não seja ele que voltou pra nos ver, em forma de sabiá? Semana que vem é finados, talvez os filhotes já estejam empenados, quem sabe começando a cantar…Nosso presente de Natal chegou antecipado este ano…

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